Poemas
José Leon Machado
Edições Vercial
RESTOS DE UMA ESTÉTICA ROMÂNTICA
I
Amar-te-ei no regresso
Das estrelas que não brilham.
O tempo das maçãs maduras
É o teu cabelo no meu rosto.
Que loucura poderei cometer
Para ter-te nos meus braços?
Não me dês a tua mão.
Os teus passos me bastam.
Não vi mais que o meu desejo
Nos teus olhos de terra
Fixando a extensão do impossível
Para lá das horas e dos dias.
Passas na minha vida
Como o vento norte pela rua
Arrastando as folhas das árvores
E levantando poeira e lixo.
Remordo-me de ânsia
Quando, vendo-te, não posso mais
Que desenhar o teu corpo
Com os lábios em silêncio.
II
Os raios de chuva amolecem
O papel e a tua boca
Mexe-se em mastigações
De lágrimas que molham
Como a chuva a rua
O teu rosto.
A alegria não está no sol
Ou no sorriso contrariado
E tantas vezes fingido.
Mas na sensação
Que ao tocar-te provoca
A minha mão no teu cabelo.
III
Enlameei o coração na tua imagem.
Não porque estivesse suja.
Sujo estava eu e a lama desceu
Ao ver-te até ao mais fundo de mim.
IV
Já não há castanhas
Nos ouriços pendurados
Dos ramos.
O que resta jaz pelo chão
E folhas mortas
Que os teus dedos remexem
Como se de rosas
Numa jarra se tratasse.
Já não há castanhas
E com elas se foi
O tempo do amor
E da folhagem verde
Para ficar apenas
Esta cor dourada
Sob a cinza do vento
Que esvoaça o teu cabelo
Pelo meu rosto
De pedra.
V
Que sono, amor, eu tenho.
Amanhã prometo,
Amanhã, se eu
Não chegar cansado.
Tenho andado cansado
Muito cansado aliás
De ti, de mim,
De tudo o que nos é comum
Tal como os pássaros no Outono
Depois de criados os filhotes
Abandonam o ninho
Que acaba por cair da árvore
Com as primeiras chuvas
E a força do vento.
VI
A árvore em frente tapa-me a vista
Da vida. Tapa-me a vista
E eu não sei se a vida está
Do outro lado à minha espera
Ou se, caindo as folhas, não há mais
Do que o prolongamento da rua.
VII
O interruptor da luz,
Onde está o interruptor da luz?
Feri o pé na borda da cama.
Se eu pudesse ligar-me
E desligar-me
Talvez não tivesse que dizer
Porra nestas situações.
VIII
Não posso chorar
Embora os olhos
Me pesem de água.
Que pode um homem
Fazer contra a morte
Se nem o amor
Consegue atravessar
O muro que são os outros?
IX
O céu não deveria ser testemunha
De um desejo que vem desde o homem
Que pela primeira vez contemplou
A nudez de Eva.
Porque o céu não pode sentir
O que a terra, na sua humidade,
No seu cheiro, sente quando,
Deitados sobre ela,
Nos enraizamos como as árvores.
X
Que fazer com os teus olhos
No momento em que um estremecimento
Das folhas nas árvores
Os desviam por um segundo?
Que farei com as tuas mãos
Atadas às minhas em nó górdio
Que apenas uma espada pode cortar
De um só golpe?
Que farei com o teu cabelo
A roçar-me a face
Como os ramos das árvores no Inverno
Uns aos outros?
E os teus lábios, que farei com eles
Depois de, movendo-os,
Pronunciarem as palavras
Que abriram a porta da terra do nunca?
E que farei com todo o teu corpo
Senão olhá-lo como David
Da janela do seu palácio
Olhou Betsabé no banho?
Braga, Dezembro de 2000
XI
Vou-me embora, vou-me sempre embora.
E o deixar-te é uma forma de perder-te
Um pouco de cada vez como a vasilha furada
Que vai perdendo a água pinga a pinga.
Eu não queria ir-me embora, voltar à vida
Mesquinha de todos os dias e de todas as horas,
Excepto as que passamos a olhar os pássaros
E a procurar a terra do nunca no mapa das mãos.
Mas que pode um homem ou uma mulher fazer
Para resistir aos muros que crescem à volta
E os cercam e os dominam e os esmagam
Senão dizer numa voz débil que se vai embora?
XII
Que farei, amor,
Com os teus olhos molhados?
Não tenho mãos para, estendidas,
Limpar-te as lágrimas.
Gastei-as no jogo da vida
Que tudo rompe.
Talvez os meus olhos secos
De não ter lágrimas para chorar
Possam servir-te de lenço
E eles próprios reverdeçam
Como a erva quase morta
Pelo calor de Agosto
Às primeiras chuvas.
XIII
A cadeira onde te sentas
Não é a cadeira onde me sento.
Se a cadeira onde te sentas
Fosse o meu coração,
Eu poderia confirmar,
Se é que o amor se confirma
Como a soma de uma conta,
Que o meu sorriso te ilumina
E, quais flores pela manhã,
Abre em pétalas as tuas mãos
Que me abraçam.
XIV
Traz-me um pedaço de neve nas mãos
E com ele arrefecerás o que por dentro
Me arde.
Não o queiras arrefecer com um sopro.
Mais aviventas a chama.
Este fogo que se vê ardendo,
– Pobres poetas cegos os que amam
E não vêem –
Não se extinguirá sem que os teus dedos
Gelados pela neve que apertas
O envolvam
Como a mãe a um menino nos panos
Morto de há três dias.
XV
Bem gostaria de dizer