Excerpt for Prosa Versificada II by José Leon Machado, available in its entirety at Smashwords


Prosa Versificada – II


José Leon Machado



Edições Vercial



O Filho do Chão





A minha terra não é inefável.

A vida na minha terra é que é inefável.

Inefável é o que não pode ser dito.


Jorge de Sena






I


Em fluxo o desespero.

Rebatem sinos

Pela montanha catedral do sol.

Extenuaram-se as águas

E os rios deixaram de seguir.







II


Terra e água um regresso a rocha

Um tesouro de minerais a tocarem-se

Para de um arbusto

Imaginar as feições iniciais.











III


Muralhas um olhar

Estradas uma face

Os pés a força

Do espaço a percorrer.









IV


Pintada uma corça

Ronda a verdura

Que perdura

Em arquivos de filme.








V


Sobre a laje cinzenta

Depositaram crisântemos

..........................................






VI


A espada rubricou o céu

Em coberturas amargo o destino

Que permite ser grande.

Plantaram um desejo:

Subir torres partidas as faces.





VII



Luz da rua branca

Atraente o precipício

A que se agarra o náufrago.

Suite de Bach intermitente.


Não era seu o vulto

sob a tília de mãos grossas

A desafiar os deuses

Como descanso das aves.




VIII


A estreiteza da árvore

Numa procura da luz

Abafada pela sombra dos montes

Embala-se ao vozear da brisa.


Sinopse as nuvens em caos

No vidro um lago

No lago um espelho

Vermelho ao fundo o caos.





IX



Bailado os ramos despidos

A serra aguarda um olhar

Para o degelo.


Seguem ovelhas pela estrada

A voz de comando

Numa agressão proclama

O dia.






X



Troféus em vitrina

Na extensão do céu

Perdeu um anjo o rumo

E transpondo as asas

De signos bordado

Refez num passo o mundo.





XI



Incógnita a montanha

Na palidez de névoa

Os corpos os mortos

Penetra faces de negrume

Para a imersão nos vales

Precipitou a voz

O desejo do sol.




XII



No vale a sombra

Húmida em trânsito a morte

carnaval máscaras

Sob as feições de digerir-se

Como cão a trincar a cauda

E o resto.




XIII



A eternidade de Deus

Um adeus

Oração fúnebre

Por alguém que não morreu.




XIV



O castelo perdeu as ameias

Atiradas pelo vento


Mina o tempo

Sob o peso da bruma.






XV


Distúrbio a luz que fere

Um cuidado de metal

Para alcance de três desejos impossíveis

Desconforme o tamanho do que seduz

O brilho perturba do sol

Picante penetrante.





XVI



Canto bravio hino

Tambores furores um ritmo

De dança ancestral e rude.


Magia de cura homenagem

A guerreiro sem voz

Estampido o canto

A incitar cadências


O corpo movendo a lua.




XVII


Pardacento num fulgor

De encaixe um gamo

Pasta o verniz da estante.

De relance constou-se

Estranho balido.


Num imploro estático

Soergueu do céu o porte sobre o dorso.






XVIII



Descobrir-se a desenhar cálices

Em ferro em prata

Licores oblação a divindade

O crepúsculo bancos de areia

Em portento emanações


Fechados os portões do Olimpo.

Hades aberto Cronos desperto

O espírito limpo do pó a vida

Morada guarida

Caronte rema


E o porto um cálice nos lábios.





XIX


Esqueletos erguidos à aragem

Troncos de árvore verdes um dia

As pedras nada as recobre

Uma nuvem de fumo percorre

Um espaço de degredo.


O mistério do homem perdeu-se

Cinza espalhada num mar de mundo.




XX



Amanheceu-me na face

E a chuva perdura em sons

No âmago.


O menino cortara um pé de caniço

E consigo recorda o brinquedo

Que nunca terá.



XXI


Um momento a memória

Canção o mar férula de olhar

Atrás na cera do tempo.

E se escorresse areia pelo rosto?






XXII



Espuma de bruma moinho

De hastes quebradas

Farol poeira lava cinza


Há muito não conduz

O barco do teu sonho

Moça que esperas o tempo





XXIII



Pêras maçãs em fruteira vitral.

O ter sido ramagem

Que o vento não pôde quebrar

Abraçar o ocaso

De um dia sem começo.




XXIV



Planta viçosa excesso de água

E carinho secou-a

Murcha fendida

Perdida em terra de espasmo.






XXV


Praias em céu cinza

Um porto águas de lume

O seu perfume barco

Num pouso o horizonte.


Brancura que perdura

Em olhos de azul corinto

Embora cansado o mar

Repita as ondas.



XXVI


Não se ouvem horas da torre

Morre um fumo de bruma

A luzir um manto


Espanto a vida não tem espanto

Novidade o ramerrão das árvores

Nas estações desiguais.


No símbolo da roupagem

Um extremo insane.

Quando nascerá um homem do tronco?





XXVII


Uma estranheza de ar

Como se faltasse e fosse demasiado.


A pomba em voo rasante

Dispersa a água num sonho de rio.





XVIII



O coração:

A montanha inóspita

Em que o vento assobia

Nas fragas cor de musgo.


A ave de rapina grasna

À fonte sem água.

Urze, giesta arreigada

Na carne fria da serra.





XXIX



As ervas secaram

As flores morreram

Os frutos caem das árvores

Passou o tempo do choro

Cloé dorme vestida de negro

À porta do casebre.






XXX


Se soubessem que o mar azul

É salgado e maior que os olhos

Haveria luar em cada homem

E a neve seria branca sempre.





XXXI


Crer nas árvores não é crer

Uma folha que cai anuncia

Desprendimento da mãe ramo


Não tem nada para mostrar

Nada mais para fazer crer

Que anunciar o regresso do fim.




XXXII



Dioniso nasceu da perna de Zeus

Como o vinho

Ao tempo dos avós.


Aliena o cheiro a mosto

E o desgosto soterrado

Liberta o riso

Nas faces trigueiras

Dos meninos.




XXXIII


Desde que o rio corra

E a melodia despida

Aflore no repouso das aves,

Que mais ansiar

Choupo à margem do esquecimento?





XXXIV


A ponte um olhar e três arcos

Febril o homem de sobretudo

Numa porta cerrada.


A luz ilumina a lua

O arvoredo agarrado ao chão

Murmura em fímbria

De susto.


Um acorde estala

Abala em alaridos

As pedras de rua

Onde ninguém passa.


A luz a noite.



XXXV



O cavalo e a sela

Numa espera de símbolos

Sobre o outeiro.


Arbustos onde flores púrpura

Expandem o ameno

De um lugar

Iniciam a fase de prata

Com princípios de verde espessura.





XXXVI



A que sabe uma carta

Que não recebemos

E dizemos estar à espera?

Vale mais o que era

Em casa aberta aos astros.



XXXVII



Em sonoridades de água

Um velho dorme

Na paragem

À aragem

De um tempo em fuga.


Arrancaram raízes

Rochas num pouso as casas

Como se asas fizessem voar

O filho do chão.


Venta sobre um corpo

Absorto em memórias.


E perde em água

O velho as frases

Para de um cardo

A morte verificar.




XXXVIII


Selene deusa da lua

A serra em altivez

Te presta o culto último


Ora o homem a outro

Poderoso do Sinai


Na pedra pereces

Em nome o que ficas.



XXXIX



Estátua em praça abandonado

O referente de ter sido algo,

Personalidade importante

No mundo da vila.


E a vila que esqueceu

E nem olha quando goza

O sol da tarde entre os

Canteiros em flor.


Purchase this book or download sample versions for your ebook reader.
(Pages 1-22 show above.)